Toda transmissão de subida agora mostra o mesmo número: “6,2 W/kg por 20 minutos”. Virou o número mágico do ciclismo, repetido por comentaristas, por aplicativos de treino e por quem pedala no fim de semana. E ele engana mais do que ajuda.
O que watts por quilo diz, e o que não diz
Watts por quilo diz quanto você produz em relação ao seu peso. É uma medida de saída. Não diz nada sobre o custo interno de produzir aquela saída.
Dois ciclistas com os mesmos 6 watts por quilo podem estar em situações opostas. Um está abaixo do limiar: usa gordura como combustível principal, recicla o lactato que produz, e chega ao topo com combustível para a próxima subida. O outro está dez watts acima do próprio limiar: queima glicogênio, acumula lactato, e está gastando agora a reserva de que vai precisar daqui a uma hora.
No visor, são idênticos. Na fisiologia, um está treinando e o outro está se endividando.
Por que ciclistas “iguais” se separam
É por isso que, na terceira semana de uma grande volta, você vê ciclistas parecidos no papel se separarem por minutos numa subida só. O número era o mesmo. O limiar, não. E, ao longo de duas semanas, quem passou mais tempo do lado errado do próprio limiar chegou à decisiva sem reservas.
Para quem pedala no fim de semana
Pare de olhar o seu W/kg comparado com o dos profissionais, ou com o do amigo do grupo. Ele não muda o seu treino. O que muda o seu treino é saber em que potência o seu corpo troca de regime.
Abaixo desse ponto, você faz volume: horas, base, adaptação. Acima dele, você faz intensidade: intervalos curtos, recuperação completa. Misturar as duas coisas, pedalando sempre um pouco forte demais para ser base e um pouco fraco demais para ser intensidade, é o erro mais comum que vejo, e a razão mais frequente para alguém treinar muito e evoluir pouco.
Estimativa não é medida
O limiar não se estima por fórmula. O famoso teste de 20 minutos chuta o seu limiar aplicando um desconto pensado para a média das pessoas, e você não é a média. Em algumas pessoas o erro é pequeno. Em outras, é a diferença entre treinar certo e treinar errado por meses.
O limiar se mede, em estágios progressivos, com uma gota de sangue do dedo ao fim de cada um. Os pontos desenham uma curva, e a curva mostra o ponto exato em que o custo dispara. É o mesmo protocolo que os pelotões profissionais usam desde os anos 1980, e continua sendo o padrão-ouro. É também o que fazemos aqui em Maceió.
Sinais do Corpo é uma série sobre o que o seu corpo mostra, o que a ciência explica e o que você pode testar sozinho.
