← Voltar para o blog

Sinais do Corpo · Triatlo

Mundial de Triatlo em Nice: o desempenho começa onde o organismo encontra seu equilíbrio

Estudos brasileiros realizados há mais de três décadas já demonstravam que o limiar de lactato poderia orientar o ritmo, prever o desempenho e explicar como uma decisão tomada na natação repercute até a corrida.

Por Pedro Balikian Jr.·12 de setembro de 2026·9 min de leitura
Mundial de Triatlo em Nice: o desempenho começa onde o organismo encontra seu equilíbrio

Neste fim de semana, 12 e 13 de setembro, Nice, na França, recebe o Campeonato Mundial IRONMAN 70.3 de 2026. A competição reúne algumas das maiores referências do triatlo para enfrentar 1,9 quilômetro de natação no Mediterrâneo, 90 quilômetros de ciclismo e 21,1 quilômetros de corrida, com chegada na Promenade des Anglais. Mais do que um encontro da elite mundial, a prova constitui um extraordinário laboratório a céu aberto para compreendermos como o organismo humano administra energia, intensidade, temperatura e fadiga.

Muito antes da popularização dos relógios com GPS, dos medidores de potência, dos sensores contínuos e dos algoritmos de inteligência artificial, já buscávamos responder a uma questão central: qual é a intensidade que permite ao triatleta alcançar o melhor desempenho global, considerando não apenas cada modalidade isoladamente, mas a interação entre natação, ciclismo e corrida?

Uma linha de pesquisa dos anos 1990

No início da década de 1990, desenvolvemos no Brasil uma linha de investigação que hoje poderia ser definida como translacional e multimodal. Utilizávamos os recursos disponíveis naquele período para integrar avaliações laboratoriais, testes de campo e coletas realizadas durante competições reais. O objetivo era transportar o conhecimento produzido no laboratório para o ambiente específico da prova, preservando aquilo que atualmente denominamos validade ecológica.

Os triatletas eram avaliados na natação, no ciclismo e na corrida. Determinávamos velocidades, frequência cardíaca, glicemia e concentração sanguínea de lactato, relacionando esses indicadores ao desempenho obtido em competições que iam das distâncias curtas ao então chamado Meio Ironman, formato conhecido atualmente como IRONMAN 70.3.

Nossos estudos demonstraram uma forte relação entre o limiar anaeróbio, determinado por meio da resposta do lactato, e o desempenho no triatlo. Na prova curta, a velocidade correspondente ao limiar apresentou elevada associação com a velocidade da natação. No Meio Ironman, também observamos uma correlação expressiva entre o limiar da natação e o desempenho nesse primeiro segmento.

Esses achados ajudaram a consolidar uma ideia que permanece extremamente atual: o VO2máx é importante, mas não explica sozinho o desempenho de resistência. Ele representa a capacidade máxima do sistema cardiorrespiratório de captar, transportar e utilizar oxigênio. Entretanto, dois atletas com valores semelhantes de VO2máx podem sustentar proporções muito diferentes dessa capacidade ao longo de uma competição.

O limiar de lactato ajuda a revelar essa diferença. Ele permite identificar a intensidade a partir da qual a produção e o aparecimento de lactato no sangue passam a crescer de maneira desproporcional à capacidade do organismo de reutilizá-lo e sustentar o equilíbrio metabólico. Por isso, os limiares são especialmente úteis para o diagnóstico funcional, a prescrição individualizada do treinamento, a definição do ritmo de prova e a identificação das adaptações promovidas pelo treinamento.

Ao longo de uma temporada, o VO2máx pode apresentar pouca ou nenhuma modificação, enquanto a velocidade ou a potência correspondente ao limiar aumenta de maneira significativa. O atleta passa a nadar, pedalar ou correr mais rapidamente antes de alcançar uma condição metabolicamente difícil de sustentar. Essa mudança frequentemente representa melhor o ganho real de desempenho do que a observação isolada do consumo máximo de oxigênio.

A natação não termina quando o atleta sai da água

Uma das descobertas mais relevantes de nossas investigações foi perceber que o triatlo não deveria ser analisado como três provas independentes. Cada segmento modifica as condições fisiológicas nas quais o seguinte será realizado.

A natação é proporcionalmente o menor trecho da competição e, ao mesmo tempo, o primeiro. Isso cria uma armadilha estratégica. Na tentativa de acompanhar um grupo, aproveitar a esteira hidrodinâmica ou conquistar uma posição melhor para a transição, o triatleta pode nadar acima do próprio limiar. O ganho de tempo obtido na água pode ser pequeno. O custo metabólico, entretanto, pode ser desproporcionalmente elevado.

Quando o atleta inicia a prova em uma intensidade excessiva, aumenta precocemente a participação do metabolismo glicolítico e acelera a utilização dos estoques de carboidratos. Ao chegar ao ciclismo, pode ser necessário reduzir a velocidade ou a potência para recuperar parcialmente o equilíbrio metabólico. Essa recuperação, porém, não apaga completamente o custo energético acumulado.

Na corrida, a conta costuma chegar de maneira ainda mais evidente. O desgaste neuromuscular, a redução progressiva do glicogênio, o estresse térmico e a dificuldade de sustentar o ritmo podem transformar alguns segundos conquistados na natação em muitos minutos perdidos no segmento final.

Essa interpretação não significa que todos os atletas devam nadar lentamente. Para triatletas de elite, perder o grupo principal também possui elevado custo esportivo e hidrodinâmico. A decisão precisa considerar o nível do atleta, sua capacidade de natação, o benefício de permanecer em determinado grupo e, sobretudo, a intensidade que ele consegue tolerar sem comprometer de maneira desproporcional os segmentos seguintes.

A melhor estratégia não é necessariamente produzir o melhor tempo isolado em cada modalidade. É alcançar a combinação de intensidades que resulte no menor tempo total.

Quando a frequência cardíaca deixa de representar somente a intensidade

Outro ponto que discutíamos já naquela época era a limitação de utilizar exclusivamente a frequência cardíaca para controlar a intensidade em provas de longa duração.

A frequência cardíaca é uma ferramenta valiosa, mas não pode ser interpretada fora do contexto ambiental. Em condições de calor intenso, ela pode aumentar mesmo quando a velocidade ou a potência permanecem constantes, ou até diminuem. Esse fenômeno está associado à chamada deriva cardiovascular.

Com a elevação da temperatura corporal, parte importante do fluxo sanguíneo é direcionada para a pele, favorecendo a dissipação do calor. A sudorese, quando acompanhada de perda de líquidos, reduz o volume plasmático. Para preservar o débito cardíaco diante da diminuição do volume de sangue ejetado a cada batimento, o coração passa a elevar sua frequência.

Portanto, em um ambiente quente, o aumento da frequência cardíaca não significa necessariamente que o atleta elevou sua potência, sua velocidade ou sua demanda metabólica externa. Pode indicar que o organismo está pagando um custo termorregulatório crescente.

Esse aspecto torna-se particularmente importante diante das temperaturas elevadas registradas em diferentes regiões da Europa e do Hemisfério Norte. Em uma prova longa, obedecer rigidamente a uma zona de frequência cardíaca estabelecida em condições ambientais diferentes pode conduzir a decisões equivocadas. A frequência cardíaca deve ser interpretada em conjunto com a velocidade, a potência, a percepção subjetiva de esforço, as condições climáticas, o estado de hidratação, a ingestão de carboidratos e, sempre que possível, indicadores metabólicos individualizados.

Da trigonometria à inteligência artificial

Na década de 1990, não dispúnhamos de GPS para verificar o percurso realizado pelos atletas em águas abertas. Para determinar a distância da natação, recorríamos à matemática, à geometria e à trigonometria. A posição das boias, os ângulos, as referências disponíveis em terra e as dimensões do percurso precisavam ser reconstruídos para que pudéssemos calcular a velocidade real dos participantes.

As ferramentas eram diferentes, mas o princípio científico era o mesmo que orienta nosso trabalho atualmente: integrar diferentes fontes de informação para compreender o desempenho no ambiente em que ele efetivamente acontece.

Hoje podemos combinar lactato, glicemia, frequência cardíaca, velocidade, potência, imagens, biomecânica, visão computacional e dados metabolômicos. A tecnologia ampliou extraordinariamente nossa capacidade de medir. Entretanto, medir mais não significa necessariamente compreender melhor. O desafio continua sendo transformar dados em decisões.

Nice e uma pergunta que atravessa três décadas

Ao observarmos o Mundial de Nice, vale acompanhar mais do que as colocações e os tempos finais. Devemos perguntar: quais atletas administrarão melhor a intensidade inicial? Quem conseguirá atravessar o ciclismo preservando energia para correr? Como o calor modificará a relação entre frequência cardíaca, potência e ritmo? E quais competidores serão capazes de permanecer próximos do próprio equilíbrio metabólico durante o maior tempo possível?

Há mais de três décadas, nossas pesquisas já indicavam que o desempenho no triatlo não depende apenas da maior capacidade máxima, mas da capacidade de sustentar intensidade, integrar as três modalidades e distribuir os recursos energéticos ao longo de toda a prova.

O triatlo é uma competição de velocidade, mas também de inteligência fisiológica.

Em Nice, como nas provas que investigávamos nos anos 1990, o campeão não será necessariamente aquele que nadar, pedalar ou correr isoladamente mais forte. Será aquele que melhor compreender, conscientemente ou por meio de uma preparação bem construída, que toda intensidade tem um custo e que a verdadeira unidade do triatlo não é cada segmento, mas o organismo que precisa atravessar os três.

Os estudos citados: Balikian Junior e Denadai, “Relação entre limiar anaeróbio e performance no short triathlon”, Revista Paulista de Educação Física, 1995; Balikian Junior e Denadai, “Resposta metabólica e cardiovascular durante o triatlo de meio Ironman: relação com a performance”, Motriz; Balikian Junior e Ribeiro, “Resposta lactacidêmica de nadadores e triatletas em função da utilização de esteira”, 2001. Sinais do Corpo é uma série sobre o que o seu corpo mostra, o que a ciência explica e o que você pode testar sozinho.