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Sinais do Corpo · Ciclismo

No calor, o seu limiar desce. A Vuelta acabou de provar

Uma etapa encurtada de 190 para 110 quilômetros, um ciclista na ambulância a 38 graus, seis abandonos num dia. O calor não é o inimigo. Subestimar o calor é.

Por Pedro Balikian Jr.·10 de setembro de 2026·6 min de leitura
No calor, o seu limiar desce. A Vuelta acabou de provar

No domingo, 6 de setembro, a organização da Vuelta ativou o protocolo de calor extremo e cortou a décima quinta etapa, em Córdoba, de 189,7 para 110,2 quilômetros. A largada foi adiada em duas horas. Dias antes, na décima segunda etapa, seis ciclistas tinham deixado a prova num só dia, e Arthur Kluckers, da Tudor, saiu de ambulância para o hospital depois de pedalar a 38 graus. A prova entrou na última semana com 149 ciclistas.

Quem treina em Maceió conhece essa temperatura de cor. Por isso este texto é sobre a Vuelta, mas é principalmente sobre você.

O que o calor faz com o limiar

Eu meço limiares há trinta anos, e uma das primeiras coisas que se aprende é que o limiar não é um número fixo. Ele desce no calor. O mesmo ciclista, na mesma bike, com a mesma potência, acumula lactato mais cedo a 35 graus do que a 20.

O motivo é uma disputa por sangue. Para resfriar o corpo, o organismo desvia uma parte grande do fluxo sanguíneo para a pele. Esse sangue deixa de ir para o músculo que está trabalhando e para o intestino. Com menos sangue, o músculo produz mais lactato para a mesma força, o coração bate mais rápido para compensar, e o esforço que era sustentável passa a ser insustentável, sem que a potência no visor tenha mudado.

Na prática: no calor, a zona de treino que você calculou num dia ameno está errada. A intensidade que era “leve” virou moderada. A que era “moderada” virou pesada. É por isso que tanta gente pedala ou corre no calor de Maceió achando que está no ritmo certo e termina o treino destruída.

Por que o corpo desiste antes do músculo

Existe um limite que o corpo defende acima de tudo: a temperatura interna. Por volta de 39,5 a 40 graus, o cérebro começa a reduzir o recrutamento muscular, mesmo que o músculo ainda tenha energia. Não é falta de força. É o organismo se protegendo de um dano que seria irreversível.

O que acontece com um ciclista que continua empurrando acima desse ponto é o que chamamos de hipertermia de esforço: tontura, confusão, náusea, queda de rendimento abrupta e, nos casos graves, a ambulância. Não é fraqueza. É fisiologia funcionando como deve, e um atleta que a ignorou.

E há o intestino, sobre o qual escrevi há duas semanas. Com menos sangue, a barreira intestinal cede, e o calor é o gatilho mais comum dos problemas intestinais que tiraram tantos ciclistas do Tour e da Vuelta este ano.

O que a organização fez, e o que você pode fazer

A Vuelta fez o que um treinador experiente faz: reduziu a dose. Menos quilômetros, largada mais tarde, menos horas sob o sol do meio-dia. Não é covardia. É respeitar a janela terapêutica do exercício, que no calor fica mais estreita.

Para quem treina no calor, o mesmo raciocínio, em três regras:

Primeira: treine pelo esforço, não pelo número. No calor, use a respiração e a percepção de esforço como guia, e aceite que o ritmo será mais lento pela mesma sensação. Insistir na potência ou no pace de um dia fresco é a forma mais comum de se machucar.

Segunda: hidrate antes, não durante. O suor no calor de Maceió pode passar de um litro e meio por hora, e ninguém consegue repor isso durante o treino. Quem começa hidratado tem margem. Quem começa desidratado não tem como recuperar.

Terceira: reconheça os sinais de que o corpo desistiu. Arrepio no calor, confusão, parar de suar, dor de cabeça súbita. Nesses casos, parar não é opcional.

Como se mede

O limiar no calor se mede como qualquer limiar: em estágios, com lactato, na temperatura em que a pessoa realmente treina. Quem faz o teste num laboratório com ar-condicionado a 22 graus e treina às onze da manhã em Maceió está usando um número que não existe. É uma das razões de eu insistir, desde o teste de campo de 1994, em medir onde o atleta vive.

Na Veltron, em Maceió, medimos no calor de Maceió. E o número que sai de lá é o que serve para a próxima segunda-feira, às onze da manhã.

Sinais do Corpo é uma série sobre o que o seu corpo mostra, o que a ciência explica e o que você pode testar sozinho.