FICHA DO TREINO
Natação em mar aberto · Praia de Ipioca, Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, Alagoas · sábado, 12 de setembro de 2026, 11h28
Sábado, meio-dia, Ipioca. Entrei na água às 11h28 e saí uma hora e nove minutos depois, com 2.780 metros no relógio. Ritmo médio de 2 minutos e 23 segundos por 100 metros.
Quem nada em piscina olha esse número e pensa que foi devagar. Quem nada no mar sabe que o número não diz quase nada sozinho. Este caderno existe para contar o que ele não diz.
O percurso
É um trajeto que faço com frequência, só de ida, ao longo da costa. De ponta a ponta são 3 quilômetros, mas neste sábado saí antes, aos 2.780 metros, por causa da maré: há corais na saída que, com a água baixa, dificultam sair do mar. Quem nada aqui aprende a ler a tábua de maré antes de ler o plano de treino.
O percurso tem duas partes muito diferentes. O primeiro terço é abrigado pela baía e pelos corais, água mais lisa. Os dois terços finais são mar aberto, com muita ondulação e vento de leste a 18 quilômetros por hora. Correnteza, não havia. O que havia era onda.
Isso aparece no gráfico de ritmo. No trecho abrigado o relógio marca um pico de 1 minuto e 37 segundos por 100 metros, e depois o ritmo vai caindo até o fim, já em mar aberto. Parte desse pico é medida de GPS, que no mar sempre oscila. Mas a tendência é real: no abrigo, o esforço vira deslocamento. Na ondulação, uma fração de cada braçada vai para subir e descer a onda e para levantar a cabeça e se orientar. Em mar aberto, ritmo é a soma do que você produz com o que a água cobra. Só a primeira parcela é treinável. A segunda é o motivo de eu preferir treinar aqui a treinar em piscina quando a prova é no mar.
Nadei com a boia de apoio flutuante, com água e isotônico dentro, e o celular protegido. Uma hora no mar, sozinho, pede isso. Não é excesso de cuidado, é o mínimo.
O que o corpo sentiu
Uma hora dentro de água a 28 graus não é neutra. A água quente tira menos calor do corpo do que a gente imagina, e o esforço continua produzindo calor o tempo todo. No aquathlon, é exatamente essa carga térmica que a gente carrega para a corrida, e foi sobre isso que escrevi na semana passada a propósito da touca de silicone.
A frequência cardíaca não ficou registrada neste treino. É uma pena, porque ela seria a primeira pista de quanto do esforço foi mecânico e quanto foi térmico. E teria mostrado com clareza a diferença entre o terço abrigado e os dois terços de ondulação.
O que eu gostaria de ter medido
É aqui que o pesquisador toma o lugar do nadador. Se este treino fosse uma avaliação na Veltron, três medidas mudariam a leitura:
- Lactato ao sair da água. Diria se os 2:23 por 100 metros ficaram abaixo, em cima ou acima do meu limiar. É a diferença entre um treino de base e um treino que cobra dois dias de recuperação.
- Temperatura corporal na saída. Uma hora em água quente, seguida de sol a pino, é o cenário em que o limiar desce sem avisar. Saber onde a temperatura estava separa cansaço de risco.
- Frequência cardíaca junto com o ritmo. Cruzando as duas curvas, dá para separar o que foi onda do que foi esforço. É o que transforma um número solto do relógio em informação sobre o atleta.
Nenhuma dessas medidas é exótica. São as mesmas que eu uso há trinta anos com atletas de laboratório e de campo. A diferença é aplicá-las ao próprio treino, no sábado, na hora do almoço, para tomar uma decisão de segunda-feira.
Próximo treino
Volto a Ipioca com a cinta de frequência cardíaca e o lactímetro na boia, e com a maré a favor para fechar os 3 quilômetros. A pergunta que fica deste sábado é simples: a 2:23 por 100 metros, com essa ondulação, eu estava treinando ou só nadando? A resposta vem no próximo caderno.
Este é o primeiro texto da série Caderno de treino, em que registro os meus próprios treinos de natação, ciclismo e corrida e mostro o que a fisiologia enxerga em cada um. As avaliações que descrevo aqui estão abertas para agendamento na Veltron.
