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Sinais do Corpo · Caderno de treino

2.780 metros em mar aberto na hora do almoço

Um treino de sábado em Ipioca: um terço abrigado pelos corais, dois terços em mar aberto com ondulação. O que o corpo faz numa hora de água quente, e o que eu gostaria de ter medido.

Por Pedro Balikian Jr.·15 de setembro de 2026·4 min de leitura
2.780 metros em mar aberto na hora do almoço

FICHA DO TREINO

Natação em mar aberto · Praia de Ipioca, Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, Alagoas · sábado, 12 de setembro de 2026, 11h28

2.780 m
distância
1h06
tempo em movimento
2:23
por 100 m
28 °C
ar, 71% de umidade
18 km/h
vento de leste
—
frequência cardíaca não registrada

Sábado, meio-dia, Ipioca. Entrei na água às 11h28 e saí uma hora e nove minutos depois, com 2.780 metros no relógio. Ritmo médio de 2 minutos e 23 segundos por 100 metros.

Quem nada em piscina olha esse número e pensa que foi devagar. Quem nada no mar sabe que o número não diz quase nada sozinho. Este caderno existe para contar o que ele não diz.

O percurso

É um trajeto que faço com frequência, só de ida, ao longo da costa. De ponta a ponta são 3 quilômetros, mas neste sábado saí antes, aos 2.780 metros, por causa da maré: há corais na saída que, com a água baixa, dificultam sair do mar. Quem nada aqui aprende a ler a tábua de maré antes de ler o plano de treino.

O percurso tem duas partes muito diferentes. O primeiro terço é abrigado pela baía e pelos corais, água mais lisa. Os dois terços finais são mar aberto, com muita ondulação e vento de leste a 18 quilômetros por hora. Correnteza, não havia. O que havia era onda.

Isso aparece no gráfico de ritmo. No trecho abrigado o relógio marca um pico de 1 minuto e 37 segundos por 100 metros, e depois o ritmo vai caindo até o fim, já em mar aberto. Parte desse pico é medida de GPS, que no mar sempre oscila. Mas a tendência é real: no abrigo, o esforço vira deslocamento. Na ondulação, uma fração de cada braçada vai para subir e descer a onda e para levantar a cabeça e se orientar. Em mar aberto, ritmo é a soma do que você produz com o que a água cobra. Só a primeira parcela é treinável. A segunda é o motivo de eu preferir treinar aqui a treinar em piscina quando a prova é no mar.

Nadei com a boia de apoio flutuante, com água e isotônico dentro, e o celular protegido. Uma hora no mar, sozinho, pede isso. Não é excesso de cuidado, é o mínimo.

O que o corpo sentiu

Uma hora dentro de água a 28 graus não é neutra. A água quente tira menos calor do corpo do que a gente imagina, e o esforço continua produzindo calor o tempo todo. No aquathlon, é exatamente essa carga térmica que a gente carrega para a corrida, e foi sobre isso que escrevi na semana passada a propósito da touca de silicone.

A frequência cardíaca não ficou registrada neste treino. É uma pena, porque ela seria a primeira pista de quanto do esforço foi mecânico e quanto foi térmico. E teria mostrado com clareza a diferença entre o terço abrigado e os dois terços de ondulação.

O que eu gostaria de ter medido

É aqui que o pesquisador toma o lugar do nadador. Se este treino fosse uma avaliação na Veltron, três medidas mudariam a leitura:

  • Lactato ao sair da água. Diria se os 2:23 por 100 metros ficaram abaixo, em cima ou acima do meu limiar. É a diferença entre um treino de base e um treino que cobra dois dias de recuperação.
  • Temperatura corporal na saída. Uma hora em água quente, seguida de sol a pino, é o cenário em que o limiar desce sem avisar. Saber onde a temperatura estava separa cansaço de risco.
  • Frequência cardíaca junto com o ritmo. Cruzando as duas curvas, dá para separar o que foi onda do que foi esforço. É o que transforma um número solto do relógio em informação sobre o atleta.

Nenhuma dessas medidas é exótica. São as mesmas que eu uso há trinta anos com atletas de laboratório e de campo. A diferença é aplicá-las ao próprio treino, no sábado, na hora do almoço, para tomar uma decisão de segunda-feira.

Próximo treino

Volto a Ipioca com a cinta de frequência cardíaca e o lactímetro na boia, e com a maré a favor para fechar os 3 quilômetros. A pergunta que fica deste sábado é simples: a 2:23 por 100 metros, com essa ondulação, eu estava treinando ou só nadando? A resposta vem no próximo caderno.


Este é o primeiro texto da série Caderno de treino, em que registro os meus próprios treinos de natação, ciclismo e corrida e mostro o que a fisiologia enxerga em cada um. As avaliações que descrevo aqui estão abertas para agendamento na Veltron.