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Sinais do Corpo · Ensaio

A genética privilegia indivíduos. O acesso privilegia grupos

Por que os sprinters são negros e os fundistas são quenianos? A resposta honesta é mais interessante do que a versão simples, e ela começa por admitir que 'africano' não é um genótipo.

Por Pedro Balikian Jr.·09 de setembro de 2026·9 min de leitura
A genética privilegia indivíduos. O acesso privilegia grupos

Há uma pergunta que todo mundo faz baixinho, e quase ninguém faz em voz alta, sobre o atletismo. Por que a final dos 100 metros é quase sempre disputada por atletas negros? Por que a maratona é quase sempre vencida por um queniano ou um etíope? E, do outro lado, por que a natação demorou tanto para ter um campeão negro?

A resposta que circula é confortável: genética. A resposta que a ciência dá é mais interessante, e começa por desmontar a pergunta.

O que um gene realmente faz

Eu sei, de dentro, o tamanho do efeito de um gene. Em 2024 publiquei, com colegas, um estudo sobre o polimorfismo do gene ACE, que regula a enzima conversora de angiotensina, e a resposta de atletas adolescentes à cafeína. O resultado foi real, mensurável e pequeno: quem carrega uma das variantes responde um pouco mais ao estímulo do que quem carrega a outra. Um pouco. Nada que se veja a olho nu numa pista.

É assim com quase todos os genes ligados ao desempenho. O mais famoso, o ACTN3, produz uma proteína das fibras de contração rápida; a variante que a produz é mais comum entre velocistas de elite do que entre fundistas. Só que ela é comum em todas as populações do mundo, e, quando pesquisadores compararam a frequência dessa variante entre velocistas jamaicanos, afro-americanos e a população em geral, não encontraram diferença capaz de explicar o domínio jamaicano. O gene existe. O efeito existe. A explicação, não.

“Africano” não é um genótipo

Aqui está o erro central da versão simples. A África é o continente com a maior diversidade genética do planeta, porque foi onde a nossa espécie passou a maior parte da sua história. Os velocistas que dominam os 100 metros têm, em sua maioria, ascendência da África Ocidental. Os fundistas que dominam a maratona vêm de uma região pequena do Vale do Rift, no Quênia e na Etiópia. Essas duas populações são geneticamente mais distantes uma da outra do que muitas delas são de europeus.

Ou seja: os dois “domínios africanos” vêm de populações diferentes, pequenas e localizadas. Falar de “genética africana” para explicar os dois ao mesmo tempo é como falar de “genética europeia” para explicar por que os noruegueses vencem no esqui e os italianos no ciclismo.

O caso mais estudado do mundo

Os corredores kalenjin, do Quênia, são a população mais investigada da história da fisiologia do exercício. Pesquisadores passaram duas décadas procurando o “gene queniano”. Não encontraram. O que encontraram foi uma combinação que nenhum outro lugar do mundo reúne ao mesmo tempo.

Altitude moderada, entre dois mil e dois mil e quinhentos metros, desde o nascimento. Quilômetros de caminhada e corrida todos os dias da infância, para ir à escola. Uma morfologia com pernas longas e finas, panturrilhas leves e baixo índice de massa corporal, que reduz o custo energético de cada passada. Uma cultura em que correr é a profissão mais desejada e os campeões moram na aldeia ao lado. Um incentivo econômico enorme numa região pobre. E um sistema de seleção brutal, em que milhares de adolescentes tentam e poucos chegam.

O fenótipo importa, sim. Um corpo com essas pernas e esse coração corre mais barato. Mas fenótipo é genótipo mais ambiente, e o ambiente ali é tão específico quanto qualquer gene. Tire a altitude, a escola a dez quilômetros e a cultura, e o mesmo genótipo produz outro fenótipo.

A contraprova está na piscina

Se a genética explicasse a distribuição racial no esporte, a natação seria o exemplo mais simples. Durante décadas se disse que pessoas negras “não flutuam”, por densidade óssea ou por composição corporal. Isso foi testado. A diferença de densidade existe e é pequena demais para alterar a flutuação de forma relevante; nadadores de elite de qualquer origem têm composição corporal parecida.

A explicação verdadeira está nos arquivos, não nos genes. Nos Estados Unidos, as piscinas públicas foram vetadas a pessoas negras até os anos 1960, e, quando a segregação acabou, muitas cidades preferiram fechar as piscinas a integrá-las. Uma geração inteira cresceu sem entrar na água. Os filhos dessa geração não aprenderam a nadar porque os pais não sabiam. O primeiro campeão olímpico negro na natação individual só apareceu em 2016.

A natação conta a mesma história do atletismo pelo lado oposto. Onde o acesso é universal, os melhores aparecem de onde estão. Onde o acesso é restrito, o talento simplesmente não é visto.

O que isso muda para quem procura talento

Há um motivo prático para eu escrever isso, e ele vem do texto anterior desta série. Quem acredita que o talento tem endereço genético procura atletas onde já existem atletas. Quem entende que o talento é individual, e que os domínios são de ambientes, procura pessoas.

É a pergunta que me levou à estrada em 1994, no mestrado: dá para encontrar o limiar de um ciclista fora do laboratório, com um teste de campo? Dava. Trinta anos depois, com uma câmera de celular, um lactímetro e um protocolo bem desenhado, dá para medir a fisiologia de qualquer criança em qualquer lugar. O que se mede é a pessoa. A origem dela não entra na conta, porque não prevê nada que o teste não mostre melhor.

O gene como álibi

Existe uma razão para a explicação genética ser tão popular, e ela não é científica. Um destino biológico é mais confortável do que uma porta fechada. Se os quenianos “nasceram para correr”, ninguém precisa perguntar por que não há pistas de atletismo na periferia. Se os negros “não flutuam”, ninguém precisa perguntar quem fechou as piscinas. A genética, usada assim, alivia a responsabilidade de quem ficou do lado de dentro.

A ciência diz outra coisa. A genética privilegia indivíduos: este corpo, com estas fibras, este coração, esta economia de movimento. O acesso privilegia grupos: quem tem piscina, bicicleta, pista, treinador e alguém que olhe. Só um dos dois está ao nosso alcance mudar.

Sinais do Corpo é uma série sobre o que o seu corpo mostra, o que a ciência explica e o que você pode testar sozinho. Este texto é um ensaio. As afirmações científicas se apoiam nos trabalhos de Yang e colaboradores (2003) sobre o ACTN3, de Scott e Pitsiladis (2010) sobre velocistas jamaicanos e afro-americanos, de Wilber e Pitsiladis (2012) e de Tucker, Onywera e Santos-Concejero (2015) sobre corredores quenianos, de Larsen (2003) sobre economia de corrida, no livro “Contested Waters”, de Jeff Wiltse (2007), sobre as piscinas nos Estados Unidos, e no estudo de Spineli e colaboradores (2024) sobre o gene ACE, do qual sou coautor.